CURIOSIDADE, UMA FERRAMENTA PARA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO.

Teresa Pereira*

 

Despertar a curiosidade da criança é ainda a melhor forma de despertá-la para o saber. A curiosidade auxilia a formação do pensamento reflexivo.

Instigar a curiosidade da criança é ainda a melhor forma de despertá-la para o saber. Vivemos em um mundo complexo e interligado de novas informações que nos chegam e nos fazem mudar de planos a toda hora; por que, então, ensiná-las apenas certezas e conhecimentos que parecem únicos?

Num mundo acelerado, onde grandes descobertas são realizadas dia a dia, a criança não é despertada pela curiosidade para entender as origens destes fenômenos por não apresentarem o hábito de perguntar; não procuram, espontaneamente, saber como foram produzidos, por que, como, para que etc, o que pode demonstrar falta de curiosidade.

Devemos sensibilizar as crianças a adotarem atitudes cientificas: de coleta de dados, através da observação, experimentação e verificação de resultados. Adotando essa postura, a criança assume papel ativo que, ao interagir em diferentes contextos, não se contentará somente em receber as informações fornecidas, mas sim, buscá-las de acordo com seu interesse; dessa forma, crescerá e aprenderá novos esquemas para conviver melhor com o meio envolvente.

Levando um grupo de crianças para visitar uma fazenda, quando questionadas sobre como se tira leite da vaca, uma criança respondeu:

- Basta abaixar e levantar o rabo da vaca.

Apesar da resposta nos parecer incorreta, possui uma lógica aparente na medida em que a criança procura, em seu repertório de experiências, uma resposta para a pergunta feita. Quando lhe mostramos como era retirado o leite da vaca, ela exclamou:

- Nossa! É preciso espremer o peito da vaca!

A partir daí, perguntamos que outras coisas poderiam ser retiradas através do mesmo processo que fizemos com a vaca; inúmeras foram às respostas: “tiramos suco da fruta espremendo”, “meu irmão espremeu a espinha de seu rosto”, entre outras.

O ambiente em que a criança nasce está cercado de máquinas e tecnologias, ficando exposta a um enorme número de informações, se contentando em recebê-las, sem apresentar o desejo de entendê-las. Caso não haja alguém que desperte sua curiosidade, é bem possível que passe a conviver com elas sem ter noção sobre como foram produzidos; percebendo-os como algo que sempre existiu, criando uma visão superficial sobre o mundo que está a sua volta.

 

É preciso que haja alguém com o objetivo de despertá-la para a necessidade de encontrar a relação de causa e efeito, meio e fim, acerca dos acontecimentos e fatos; estamos nos referindo agora à emergência de se desenvolver nela a habilidade de relacionar os eventos e fatos, numa seqüência temporal.

Através de uma interação de qualidade, ou seja, Mediação, é possível criar esta necessidade. Entendemos a Mediação como uma interação direcionada a desenvolver esquemas cognitivos que favoreçam ao indivíduo uma melhor captação das informações, a fim de que possam gerar novos conhecimentos. A Mediação deverá estar focada em despertar na criança a curiosidade e o interesse em entender os fatos, acontecimentos sobre o mundo e antecipar possíveis conseqüências.

A pergunta é uma poderosa ferramenta que dispomos para ativar processos de raciocínio nas crianças; portanto, é imprescindível sabermos formular, com precisão, perguntas que levem a um pensar eficiente. Uma boa pergunta deve guiar a observação, a análise, a comparação e o juízo; a fim de que possam chegar, por si mesmos, a conclusões.

Por isso, é preciso fazer uso de perguntas, tais como:

-O que é isso?

-Para que serve isso?

-Por que se faz isso?

É preciso estar atento à resposta dada pela criança para saber reconhecer se a resposta fornecida se encontra no universo da pergunta formulada. Uma criança que cresce num ambiente questionador terá mais chance de desenvolver um pensamento reflexivo, ou seja, questionador.

Tanto a escola, no que se refere aos conteúdos formais, quanto à família, no que se refere à construção de valores, não devem deixar a criança sem respostas; é preciso ajudá-la a fazer “pontes”, entre sua curiosidade e os conteúdos formais e informais, que gerem conhecimento.

Música funk, vestuário, idéias, atitudes e comportamentos, atualmente são reproduzidos por essas crianças muitas vezes com o consentimento dos pais, que esquecem de se ater ao teor destas mensagens. A criança aprende por imitação o que facilita a construção de valores distorcidos e, se não houver uma pessoa experiente que signifique estes comportamentos e as mensagens, é bem possível que elas formulem conceitos e valores inadequados.

Em países menos abastecidos de tecnologias, foi observado que as populações possuem menos dificuldades para aprender porque a aprendizagem ainda está sendo repassada por seus pais; enquanto que, em países desenvolvidos e abastecidos de tecnologias modernas, as populações apresentam mais dificuldades devido à carência da necessidade de entender como as coisas são construídas. Neste contexto, as tecnologias ocupam um lugar de destaque na formação dos jovens.

A escola e a família precisam estar mais unidas quanto aos objetivos da Educação e atentas à construção de conceitos e valores. Ora, a escola deve se flexibilizar e seguir a criança; ora, deve se adiantar e abrir o caminho, ao mesmo tempo em que orienta.

A família, por sua vez, deve assumir melhor o seu papel na orientação dos afetos, cultivo de valores pessoais e sociais e não delegar à escola a sua função.

Juntas, família e escola, é possível criar um ambiente modificabilizante; ou seja, um ambiente propício à mudança, sem medo do novo. Um ambiente de reconstrução contínua em prol da qualidade na Educação e nas relações humanas.

* Teresa Pereira - Supervisora e Terapeuta Psicopedagógica; Sócia-Gerente do Núcleo de Desenvolvimento do Potencial Cognitivo-NDPC, Coordenadora do Projeto Um Passo A Mais - desde 2000; Pedagoga – Universidade Candido Mendes-RJ; Formação no Programa de Enriquecimento Instrumental – Nível I e II-ICELP/Israel; Formadora de Aplicadores no Programa de Enriquecimento Instrumental - Nível I e II - ICELP/Israel; Formação em Programa de Enriquecimento Instrumental Básico-ICELP-Israel. Núcleo de Desenvolvimento do Potencial Cognitivo /NDPC - Centro Autorizado pelo International Center for the Enhancement of Learning Potential – Israel